Em inglês, usa-se bastante a expressão “trained economist”, principalmente em frases que começam com “as any trained economist could tell you…”, com o sentido de que um mínimo de educação formal em economia já é o suficiente para tornar óbvia a idéia que quem diz a frase (geralmente, um economista) está tentando passar (geralmente, para não-economistas). Mas a idéia de que economistas são apenas “treinados” é persuasiva por outro motivo: não é raro que situações que parecem óbvias quando vistas pelo ângulo usual pareçam completamente extraordinárias quando um de seus componentes se encontre alterado.
Assim, nenhum economista “treinado” verá dificuldades para dizer que a queda da Argentina em 2001 é uma aplicação clássica da idéia da “trindade impossível”, com câmbio apreciado sendo impossível de conciliar com liberdade de fluxos de capitais (convertibilidade plena da moeda!) e política monetária independente. O resultado foi anos de taxas reais de juros muito altas, que levaram à recessão, culminando em um ataque à moeda, com depreciação catastrófica e todos os sintomas usuais. Em geral a teoria é apresentada com um diagrama como a Figura 1, abaixo, que mostra um triângulo com um dos três objetivos em cada vértice; a idéia é que os países terão que escolher um dos lados do triângulo para pousar sua política, conciliando apenas os dois objetivos mais próximos. A partir de um modelo como o velho Mundell-Fleming se pode derivar a trindade; a hipótese básica é que, com liberdade de fluxos de capitais, esses fluxos são tão grandes que controlar os três vértices do triângulo em níveis inconsistentes torna-se impossível. O exemplo mais comum é aquele em que um país tenta manter uma moeda artificialmente apreciada, ao mesmo tempo em que quer deixar sua taxa de juros baixa.
FIGURA 1: A Trindade Impossível
Pode-se argumentar, embora eu pessoalmente ainda não tenha visto isso feito com todas as letras, que o Brasil hoje se encontra brigando com a mesma trindade impossível, com a única diferença de que ele luta para manter uma moeda depreciada enquanto a taxa de juros permanece alta para controlar a demanda. Me arrisco a dizer que isso não era verdade até há pouco tempo, com a progressiva valorização do real sendo causada mais por fatores “reais”, de conta corrente, do que por fatores financeiros. Ultimamente, no entanto, parece que o Brasil virou um dos destinos preferidos para ancorar uma das pontas em carry trades. No último post, eu descrevo a lógica, por parte dos agentes financeiros que geram esses fluxos que garantem a impossibilidade da trindade, de trazer a moeda para o Brasil, baseada principalmente na disposição revelada pelo governo de evitar a apreciação do real. Nesta Análise, eu descrevo a conduta do governo na política cambial, e trago cinco possíveis resoluções do “trilema de política econômica” com que o governo se defronta.
O controle do câmbio: média ou volatilidade?
O governo brasileiro demonstra pouca disposição em permitir uma apreciação nominal do real para níveis abaixo de R$2,10 ou R$2,00. Como a liberdade de capitais não é plena, e como há incerteza quanto a uma série de fatores, os fluxos não são “infinitos” como é comum assumir: toda inconsistência de política é sustentável na margem, embora continue insustentável a longo prazo. Na margem, um câmbio apreciado pode ser defendido pela venda esterilizada de dólares: o Banco Central vende dólares e recebe reais, o que teoricamente aumentaria a taxa de juros, mas utiliza esses reais para comprar títulos, o que leva de volta a taxa de juros para o nível anterior. Similarmente, um câmbio depreciado pode ser mantido pela compra esterilizada de dólares. É isso que vem acontecendo ultimamente, como a figura 2, abaixo, indica: ela traz o nível de reservas internacionais até janeiro de 2007, com a linha vermelha trazendo o último mês em que houve perda de reservas de mais de 5% do total – abril de 2006. Acredita-se que elas fechem fevereiro acima de 95 bilhões de dólares, não sendo impossível que ultrapassem a marca dos 100 bilhões até março.
FIGURA 2: Evolução das Reservas Internacionais Brasileiras

Intervenção cambial é sempre um assunto controverso. Embora não haja evidência conclusiva sobre o impacto do regime cambial sobre variáveis que realmente importam, como crescimento, renda per capita, etc, há um certo consenso sobre o fato de que, tudo o mais constante, menor volatilidade cambial é preferível. Isto fornece um argumento para a intervenção cambial à medida em que esta não interfira sobre o câmbio “de equilíbrio” da economia. Como também não há muito consenso sobre o que seria um câmbio de equilíbrio (para ficar no caso à mão, o câmbio de equilíbrio é o que equilibra as transações correntes ou os fluxos de capitais?), e há grupos de interesse que preferem câmbio mais apreciado, enquanto outros o preferem mais depreciado, a intervenção cambial é geralmente feita com bases teóricas fracas, com dominância dos interesses políticos. De qualquer forma, o atual comportamento do governo parece ser fundamentado na crença de que os fluxos de capitais são mero ruído sobre o nível do câmbio; o Banco Central parece acreditar estar apenas reduzindo sua volatilidade (que já é, hoje, menor do que a de outras moedas emergentes). Com isso, o câmbio vem se mantendo próximo a R$2,10 por dólar, e as reservas vêm crescendo rapidamente.
Mas o acúmulo de reservas não ocorre de graça. Se o Banco Central esteriliza as intervenções cambiais emitindo títulos, o custo das reservas é o spread entre o que o Banco Central paga pelos títulos (aproximadamente, a taxa Selic) e o que ele recebe pelo investimento das reservas (se forem títulos norte-americanos de longo prazo, algo próximo a 5% ao ano). A diferença, 8% ao ano às taxas atuais, são os custos das reservas. O ganho que os investidores têm ao investir no Brasil ao invés de nos Estados Unidos é pago, na verdade, pelo Banco Central (sob a hipótese de câmbio em R$2,10). É esse custo fiscal, potencialmente grande e crescente, que garante a insustentabilidade a longo prazo da intervenção sobre o nível da taxa de câmbio. Se uma taxa artificialmente apreciada é insustentável porque as reservas internacionais um dia acabam, uma taxa depreciada é insustentável porque o peso fiscal do acúmulo de reservas pode tornar-se inconsistente com baixa inflação (e aumento da inflação corrigiria o desequilíbrio do câmbio real). Com fluxos “infinitos” de capital é muito fácil ver que isso acontece instantaneamente; com fluxos bastante líquidos, mas não exatamente infinitos, é possível que o acúmulo dure algum tempo antes de ficar insuportável.
Isso não depende do diagnóstico sobre a força que está gerando essa pressão pela apreciação do real. Se é uma tentativa de afastamento do câmbio de equilíbrio, então a intervenção é ruim em princípio, e vai ser revertida no câmbio real pela inflação. Se o câmbio de equilíbrio realmente está perto dos R$2,10, como o Banco Central parece acreditar, ainda assim é possível que os fluxos de capitais atuais gerem uma pressão pela apreciação grande o suficiente para tornar o acúmulo de reservas desconfortável para o Banco Central. Na verdade, isso gera um feedback positivo, aumentando os fluxos de entrada, e reforçando a pressão pela apreciação, ao indicar para o mercado que a única direção possível para o real hoje é na direção da apreciação.
Essa situação implica, então, em contínua acumulação de reservas e pressão pela apreciação do câmbio. Mas o governo brasileiro está tentando implementar uma trindade de política econômica que é, como diz o próprio nome, impossível. De alguma forma isso vai ter que se resolver.
Cinco resoluções: uma desejável e improvável, uma indesejável e improvável, uma desejável e possível, uma indesejável e possível, e uma indesejável e provável :)
Eu realmente acredito que não vai demorar muito para a discussão da política econômica brasileira começar a ser feita nos termos que trago nesta Análise. É possível que o cenário mude antes de isso acontecer, mas caso as coisas continuem funcionando como funcionaram nos últimos seis meses eu acho que a discussão vai caminhar para a lógica que desenvolvo aqui. O cerne da questão, portanto, é: se o mix de política econômica é insustentável, como ele vai mudar? Vejo cinco cenários: os três primeiros seriam iniciados por decisões governamentais. Como esse governo não gosta muito de decidir, acho improvável que a saída se dê por algum desses três cenários, apesar de o terceiro ser meu predileto. Os dois últimos seriam resoluções “exógenas” do “trilema”.
1) Flutuação cambial plena: disse que acredito que parte das entradas de capital dependem da garantia implícita de que o governo vai estabilizar o câmbio. Para entender como, imagine novamente que você é o estrategista de um hedge fund, e viu que o câmbio se apreciou 20% nos últimos seis meses, com a montagem de várias posições de carry trade. Você espera, então, que caso essas posições se desfaçam num pânico, o câmbio se deprecie ao menos nesses 20%. Se você atribui alguma probabilidade a um tal pânico, seu retorno esperado reduz-se em alguma medida, talvez o suficiente para você deixar de montar mais uma posição. Se, por outro lado, o câmbio permaneceu em torno de R$2,10 e houve grande acúmulo de reservas, você fica tranquilo que em caso de pânico a maior parte do ajuste deve ocorrer via redução dessas reservas, sem grande impacto sobre o câmbio. Em outras palavras, a estabilização do câmbio em torno de R$2,10 é uma garantia que o Banco Central oferece aos investidores – como estrategistas gostam de diferenciais de juros e abominam volatilidade cambial, o efeito é aumentar a atratividade da moeda brasileira. Se o Banco Central conseguir transmitir que vai intervir menos no câmbio sem causar um pânico, os fluxos de entrada devem se reduzir. Mas o anúncio tem que ser feito com cuidado, pois, se o Bacen deixar o câmbio flutuar plenamente para os dois lados, a desmontagem das operações já abertas gera uma expectativa de depreciação que pode justamente precipitar uma fuga desordenada do real e uma depreciação forte e imediata. Na verdade, é bastante arriscado e exige bastante tato mudar a política a essa altura. Num momento em que as desconfianças sobre ao Banco Central aumentam, um lance ousado pode não ser o caminho mais prudente. O que eu gostaria mesmo é que o Banco Central nunca tivesse começado a intervir no câmbio…
2) Controle de capitais: se começa a ouvir um clamor por controles de capitais. É uma maneira em princípio válida de sanar a impossibilidade da trindade de política econômica, mas a gente sabe que, na prática, é quase impossível fazê-lo. A Tailândia, aliás, tentou isso por causa dos mesmos problemas que hoje enfrentamos. Além disso, seria um retrocesso marcante para a política cambial brasileira, que vem em progressiva liberalização desde a metade da década de 90. Graças a Deus, também acho esse cenário bem difícil: seria uma ruptura diretamente sobre o patrimônio de confiança que vem sendo conquistado pelo Banco Central.
3) Inflation targeting!: a literatura sobre inflation targeting em economias emergentes lembra que nesses países o câmbio é uma variável mais volátil do que em economias maduras. O foco costuma ser nas crises e sudden stops, que na melhor das hipóteses geram uma depreciação que impacta a inflação, e na pior das hipóteses gera uma crise de balanço de pagamentos (dizia Simonsen: “inflação esfola, balanço de pagamentos mata”.). A prescrição, então, é juros mais altos para garantir fluxos de capitais que mantenham a economia à tona; o efeito recessivo sobre o produto é considerado de segunda ordem nessa situação, e na verdade é até necessário como resposta ao ímpeto que a inflação ganha nesses cenários de crise. Por outro lado, não há porque não considerar que a vulnerabilidade é simétrica: entradas excessivas de capitais, com pressão por apreciação cambial e redução da inflação, dão ao Banco Central uma folga para reduzir os juros mais fortemente. Com isso ele não só vai estar reduzindo os excessivos fluxos de entrada, enfraquecendo a moeda e segurando a excessiva apreciação, como também vai dar um impulso à demanda consistente com a folga que o câmbio apreciado lhe deu na inflação (o Focus de hoje projeta inflação em 2007 igual a 3,97%). Essa abordagem, que eu acredito ser a melhor resposta a partir do nosso ponto atual, exigiria um excelente trabalho de comunicação por parte do Banco Central.
4) Risco fiscal: a trajetória de mera continuidade do atual processo não é difícil de prever. O Brasil talvez chegue ao final de 2007 com 150 bilhões de dólares em reservas; com o câmbio próximo ao nível atual, o custo fiscal disso seria algo como 25 bilhões de reais. É bastante coisa, mas ainda acomodável com algum cuidado. Caso o processo se acelere para uma velocidade chinesa, ou dure alguns anos (o Brasil chegando ao a 250 bilhões de dólares em reservas, e um custo fiscal de mais de 40 bilhões), algumas dúvidas quanto à sustentabilidade do processo vão começar a surgir. Podemos cair em um cenário de dominância fiscal, em que a insustentabilidade da política fiscal implica em aumento do risco-país e redução das entradas de capital. É um cenário de resolução pela perda de confiança, em que a política monetária brasileira torna-se incapaz de afetar a inflação, mesmo na margem.
5) The Great Unwind: a trajetória da dominância fiscal depende da manutenção do sistema atual por um período prolongado. Atualmente a expectativa é que a qualquer momento pode surgir uma notícia que precipite a alta do yen, com resultados catastróficos como em 1998. Nesse caso, o medo da iminente apreciação do yen levaria à corrida para encerrar as posições; como você só fecha uma posição vendida comprando, isso levaria a uma alta ainda mais forte do yen – o resultado seria prejuízos colossais para as posições abertas, aumento da correlação e redução da liquidez em todos os mercados à medida em que os fundos reorganizassem suas carteiras. Para os países emergentes, os ganhos de reserva ocorridos por fluxos de investimento em carteira se reverteriam inteiramente, com um típico sudden stop. A crise só não seria maior porque, hoje, a maior parte desses países têm superávit em transações correntes.
Infelizmente, vejo a política econômica brasileira operando numa inércia tal que é mais provável que a resolução de nossa impossibilidade monetária/cambial se dê de um modo que não depende da política. Pode ser por “causa natural”, com a obesidade de nossas reservas engolindo nossas artérias fiscais, conforme o cenário 4, ou por “causa violenta”, com a falta de liquidez nos atingindo diretamente do dia pra noite, como no cenário 5.